A premiada escritora francesa Annie Ernaux, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, lança no Brasil seu mais recente livro, Memória de menina, publicado pela editora Fósforo. Nesta obra, a autora retorna ao verão de 1958 para revisitar uma experiência que marcou profundamente sua juventude e influenciou sua carreira literária.
Uma experiência transformadora
Em Memória de menina, Ernaux reconstrói os eventos de quando, aos 17 anos, deixou sua cidade natal para trabalhar como monitora em uma colônia de férias na Normandia. Foi ali que viveu sua primeira experiência sexual, um episódio que deixou cicatrizes emocionais profundas e moldou sua identidade pessoal e literária. Com sua habitual minúcia e coragem, a autora explora os efeitos traumáticos dessa vivência, que se refletiram em transtornos físicos e psicológicos ao longo de sua vida.
O livro é uma tentativa de acessar aquilo que a autora gostaria de esquecer, mas que reconhece estar na gênese de quem se tornou. Em suas próprias palavras, Ernaux descreve o impacto desse período: “Aquela menina de 58, que, passados cinquenta anos, é capaz de surgir e provocar um colapso interior, vive, portanto, em mim com sua presença escondida, irredutível. Se o real é aquilo que age, produz efeitos, segundo a definição do dicionário, essa menina não sou eu, mas ela é o real em mim. Uma espécie de presença real.”
A marca da memória e a gênese de uma autora
Ao longo de sua trajetória, Annie Ernaux sempre demonstrou um forte compromisso com a memória pessoal como fonte literária. Nascida em 1940, em Lillebonne, a escritora francesa construiu uma obra marcada pela escrita autobiográfica, utilizando suas vivências para explorar temas universais, como identidade, classe social e a passagem do tempo.
Estudou na Universidade de Rouen e foi professora do Centre National d’Enseignement par Correspondance por mais de trinta anos. Seus livros são considerados clássicos modernos na França. Em 2022, Ernaux recebeu o prêmio Nobel de literatura pelo conjunto de sua obra.
Com um estilo direto e sem rodeios, Ernaux narra suas experiências com uma sinceridade quase brutal, que a consagrou como uma das vozes mais autênticas e impactantes da literatura contemporânea. Entre seus principais livros estão Os anos (2008), O acontecimento (2000) e A mulher gelada (1981). Sua obra é frequentemente elogiada por sua habilidade de conectar o íntimo ao coletivo, transformando memórias pessoais em relatos universais.
O lançamento de Memória de menina reafirma a relevância da autora no cenário literário mundial e oferece ao público brasileiro a oportunidade de mergulhar em uma narrativa que, ao mesmo tempo, revela traumas e reflexões individuais, ecoa experiências compartilhadas por mulheres de diferentes gerações.
Annie Ernaux: reflexão e maturidade
Aos 84 anos, Ernaux continua desafiando convenções literárias e ampliando os limites da escrita autobiográfica. Em Memória de menina, ela aborda não apenas a experiência traumática em si, mas também como a passagem do tempo e os acontecimentos históricos posteriores moldaram sua percepção daquela época. A leitura de O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, emerge como um divisor de águas, oferecendo-lhe ferramentas para entender as angústias femininas que marcaram sua juventude.
Com o lançamento de Memória de menina, Annie Ernaux mais uma vez desafia seus leitores a confrontarem o passado e refletirem sobre as implicações das experiências pessoais na construção da identidade. O livro está disponível nas principais livrarias do Brasil, consolidando a presença da autora no cenário literário nacional e reafirmando seu compromisso com a memória como um ato de resistência e autoconhecimento.
Com um enredo íntimo e doloroso, Memória de menina promete cativar leitores que já acompanham a obra de Annie Ernaux e também aqueles que buscam compreender como as memórias pessoais podem se transformar em arte literária. Ao revisitar suas próprias feridas, Ernaux nos convida a refletir sobre nossas próprias histórias e sobre a difícil tarefa de lidar com o passado.
“Memória de menina é um belo e profundo exame da parede impenetrável que o tempo erige entre quem somos e quem um dia fomos. Não conheço nenhum outro livro que ilustre tão vividamente as frustrações e tentações dessa barreira, nossas mágoas e ânsia em tentar rompê-la”, diz Sheila Heti, autora de Maternidade.
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