2 de abril de 2025
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Arquivo-X: a melhor série que já existiu

Em setembro de 1993, ocorreu a estreia da série de TV Arquivo X, combinando ficção científica, suspense e terror. Mulder e Scully entravam na cultura televisiva e desde então ocupam um lugar privilegiado nela.
20 de março de 2025
Gillian Anderson e David Duchovny em seus icônicos papéis
Gillian Anderson e David Duchovny em seus icônicos papéis. Foto: divugação.

Um agente do FBI, na casa dos 30 anos, psicólogo formado, com passado brilhante, mas com fama de “esquisitão” por acreditar em alienígenas e teorias da conspiração, recebe, com desconfiança, uma agente, na casa dos 20 anos, cientista, designada por seus superiores para trabalhar com ele. Esse enredo pode ser visto com desconfiança. Afinal, ele lembra os discursos dos terraplanistas, antivacinas e outras bizarrices de nosso tempo. Mas não é bem assim. Essa é a sinopse da série “Arquivo-X” (X-Files), que foi ao ar, pela primeira vez, em 10 de setembro de 1993, e representou um divisor de águas na história da televisão.

Arquivo X foi criada pelo americano Chris Carter, que também escrevia e dirigia alguns episódios. A série segue os agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson), que investigam casos não resolvidos, conhecidos como “arquivos X”, que envolvem fenômenos paranormais e inexplicáveis. Mulder acredita em conspirações governamentais e seres extraterrestres, enquanto Scully, inicialmente cética, busca explicações científicas para os eventos que eles investigam.

A série foi um fenômeno de audiência. Primeiro nos Estados Unidos e, depois, em todo o mundo. No total, foram 11 temporadas (até agora), nove entre 1993 e 2002, duas entre 2016 e 2018, e dois filmes, “Resista ao futuro”(1998) e “Eu quero acreditar” (2008). Além disso, a série conta com dezenas de livros, quadrinhos, trilhas sonoras (dos filmes) um spinoff (“Os Pistoleiros Solitários”), cards, crossovers (com “Millenium”, por exemplo) e tem uma legião de fãs que perdura até hoje, os chamados eXcers.

Mas Arquivo X foi apenas um sucesso comercial? Não mesmo.

Por que Arquivo-X foi a melhor série que já existiu?

Em primeiro lugar, porque a série era muito bem escrita. Pelo menos as primeiras seis temporadas. Eram episódios redondinhos, com começo, meio e fim (ou quase fim). As ideias eram criativas e com desfechos surpreendentes. Seus roteiristas sabiam fazer humor, mas a série era, fundamentalmente, uma série de drama. O peso dramático sempre ficava claro, por exemplo, nos episódios que falavam sobre o trauma e o luto de Mulder, que teve sua irmã mais nova abduzida quando era criança. Ou nas histórias familiares de Scully.

Além disso, Carter, Duchovny e Anderson tinham a série na mão. Ator e atriz eram carismáticos, tinham entrosamento e tensões criativas (como em qualquer processo criativo). Não à toa, os dois passaram a participar da produção, dos roteiros e até da direção, à medida que a série avançava. Ambos foram indicados a vários prêmios importantes nos Estados Unidos, como o Emmy e o Globo de Ouro. Com vitórias.

A força do roteiro e das atuações pode ser vista em episódios como “Squeeze”, da segunda temporada. Neste episódio, Mulder e Scully investigam uma série de assassinatos ritualísticos por alguém aparentemente capaz de espremer seu corpo por brechas impossivelmente estreitas. Os agentes deduzem que seu suspeito pode ser um mutante genético que vem matando em farras por noventa anos.

Outro episódio fantástico é “O Prometeus Pós-Moderno”, quinto episódio da quinta temporada da série, que é cheio de referências à cultura pop e literária. Neste episódio, Mulder e Scully investigam relatos de uma criatura misteriosa que engravidou uma mulher de meia-idade. Eles descobrem que o “monstro”, apelidado de The Great Mutato, é a criação genética de um médico tipo Frankenstein. The Great Mutato é inicialmente condenado ao ostracismo, mas depois aceito por sua comunidade. Episódio filmado em preto e branco e com diferentes perspectivas.

Vale a pena dizer que, na época, era mais fácil desenvolver as histórias e os personagens, porque as séries de drama tinham, em média, 24 episódios de 44 minutos. Então, os roteiristas podiam arriscar muita coisa, testar tipologias, desenvolver ideias com mais liberdade. Isso certamente levava a episódios que podiam até não ser bons, mas, fazendo as contas, isso era mais vantajoso que desvantajoso. Nem tudo precisa ser excelente. Arquivo X mostra isso muito bem. A gente entendia que, talvez, 30% dos episódios não precisavam existir – mas isso permitia os outros 70% incríveis.

Os episódios de Arquivo X, a propósito, eram avulsos (monstros, serial killers, desaparecimentos, vampiros, viagens no tempo, etc) ou de mitologia (o grande arco da história, sobre a conspiração alienígena envolvendo o governo americano).

Um dos meus episódios favoritos é “O campo onde morri”, da quarta temporada, a melhor de todas, na minha opinião. Mulder vai investigar uma seita suicida (típica do final dos anos 1990) e acaba descobrindo suas vidas passadas, uma delas na Guerra Civil Americana! É um episódio muito emocionante, que expõe todas as fraquezas e dilemas da vida da personagem.

Até a quinta temporada, Arquivo X foi filmado no Canadá. Devido à grana. Filmar em Vancouver era mais barato do que filmar nos EUA. Mas depois do primeiro filme, as filmagens passaram para Los Angeles. Isso foi algo negativo, pois o clima frio e nublado canadense combinava muito com a série, enquanto a solar LA diminuiu um pouco desse impacto. Mas a série continuou reunindo muitas qualidades, que a mantiveram no topo.

Com o tempo, Mulder conseguiu superar a desconfiança de sua parceira, e ela se tornou a pessoa em que ele mais confiava no mundo. Mas isso não fez desaparecer a tensão entre ambos – algo que fez de Arquivo X uma série muito sólida. Scully continuou sendo cética – quanto a tudo. E Mulder, ao contrário, um crente, capaz de acreditar em qualquer história. Esse antagonismo inicial dos protagonistas, com suas crenças contrastantes, é uma das principais atrações do programa, que combina como nenhum outro mistério policial e ficção científica – em um tempo que o gênero terror encontrava-se em declínio e as séries de TV não tinham o peso de hoje.

E sabe a questão da conspiração? Pode parecer estranho hoje, mas na época, a questão da conspiração tinha a ver com a desconfiança frente a um governo americano que parecia esconder informações e enganar o povo. Era uma época de governo republicano nos Estados Unidos, que tinha acabado de fazer guerra contra o Iraque e outros países. A série, assim, pode ser vista como uma crítica ao poder monumental dos Estados – seu poder de controlar a biopolítica e os meios de violência.

Impacto cultural e elenco

Outro elemento que faz de Arquivo X monumental: o impacto cultural foi imenso. A série influenciou muitas outras produções de ficção científica e mistério, além de popularizar o gênero “procedural” misturado com o sobrenatural. Muitos de seus personagens e conceitos, como os “Homens de Preto” e o famoso slogan “A verdade está lá fora”, tornaram-se parte do imaginário coletivo, mantendo a série relevante mesmo após seu fim original em 2002. Podemos dizer que Arquivo-X foi a série mais importante depois de “Além da Imaginação” (que a influenciou) e “Twin Peaks” (onde Duchovny fez participação).

E algo que não podemos deixar de mencionar: a qualidade do elenco, mesmo o de “apoio”. Bryan Cranston, por exemplo, antes de se tornar famoso por Breaking Bad, fez uma participação na 6ª temporada de Arquivo X no episódio “Drive”, interpretando um homem com uma condição física peculiar. O episódio todo se passa num carro.

Jack Black também esteve lá, na temporada três, no episódio “DPO”. Nele, Mulder e Scully investigam uma série de mortes relacionadas a raios em Oklahoma, que eventualmente são conectadas à única pessoa, um jovem emocionalmente carregado (amigo de Black), a ter sobrevivido a uma série de raios mortais.

Quer mais? Aqui vai uma pequena lista: Lucy Liu, Ryan Reynolds, AaronPaul, Shia Labeouf, Jewel Staite, Luke Wilson. Vince Gilligan, criador de “Breaking Bad”e “Better Call Saul” foi escritor e produtor executivo de Arquivo X e teve algumas contribuições notáveis para a série.

Exibição

No Brasil, Arquivo-X era exibido pela Record na TV aberta (que, segundo se falava na época, censurou alguns episódios), enquanto na TV fechada era exibida pela Fox. A abertura foi icônica, com o assustadiço “assobio” distorcido.

Acompanhar uma série nos anos 1990 era muito diferente de acompanhar uma série atualmente. Na época, a internet ainda estava engatinhando, e obter informações sobre os programas favoritos era um desafio.

Em primeiro lugar, as temporadas das séries chegavam com grande atraso. E tinham uma ou duas exibições por semana, no máximo. Nos Estados Unidos, as séries estavam duas ou até três temporadas à frente. Obter informações sobre a produção era outro desafio. Elas apareciam em segundos cadernos de grandes jornais, em programas para jovens (MTV e outros) ou, principalmente, em revistas especializadas em cultura POP, como a Revista Herói, que fez muito sucesso no Brasil.

Efeito Scully

Recentemente, um estudo intitulado “The Scully Effect: I Want to Believe in STEM” destacou o impacto da personagem Dana Scully, de The X-Files, na percepção de mulheres sobre carreiras em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A pesquisa, realizada pelo Geena Davis Institute, 21st Century Fox e J. Walter Thompson Intelligence, revelou que 63% das mulheres que conheciam a personagem se sentiram mais confiantes para seguir profissões dominadas por homens.

Temporada 10 de Arquivo-X, de 2016. Foto: FOX.
Temporada 10 de Arquivo-X, de 2016. Foto: FOX.

Além disso, 91% das participantes consideraram Scully um modelo de inspiração, associando-a a atributos como inteligência, força e habilidade, quebrando estereótipos de gênero frequentemente encontrados na mídia.

A pesquisa também sugere que representações de personagens femininas em STEM podem reduzir a disparidade de gênero nesses campos. O estudo recomenda a criação de mais personagens femininas em papéis de destaque em STEM, além de reformular os ambientes de aprendizagem e as representações midiáticas, para combater os estereótipos de gênero.

A pesquisa Geena Davis Institute conclui que a visibilidade de modelos femininos é crucial para inspirar e aumentar a confiança das meninas e mulheres nas ciências e tecnologias.

Por tudo isso (e um monte de outras coisas que não cabem neste espaço) Arquivo X pode ser considerada a melhor série de todos os tempos na televisão, integrando uma “Era de Ouro” (ou um despertar) das séries de TV. Arquivo-X foi contemporânea de: Fraiser, Friends, ER, Law and Order, Seinfeld, Charmed, Buffy, e muitas outras. Mas só Arquivo-X foi capaz de provocar tanto rebuliço. A verdade ainda está lá fora.

Bruno Leal

Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor do Departamento de História da Universidade de Brasília. É editor do portal Café História e colabora esporadicamente para o Bonecas Russas.

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