Segundo o Oxford English Dictionary, o termo zumbi foi usado pela primeira vez em língua inglesa em 1819, como sinônimo de Diabo, no livro “História do Brasil, do historiador Robert Southey. Porém, foi somente em 1889 que ele começou a se popularizar, graças ao artigo “The Country of Comers-Back”, do jornalista e antropólogo amador Lafcadio Hearn, que viajara para a ilha da Martinica para estudar mitos e folclores do Caribe. Foi lá que Hearn conheceu e procurou conhecer mais do fenômeno dos coprs cadavers (“mortos que caminham”), que alguns nativos chamavam de “retornados” ou “zumbis”.
Hearn não conseguiu descobrir muito bem o que seriam os zombies da Martinica. A população tinha medo de falar, e dava respostas vagas quando comentava algo. A única coisa que conseguiu deduzir é que se tratava de mortos que andavam e assustavam os vivos à noite, mas com materialidade do corpo, diferente de fantasmas.
Em 1928, oz zumbis ficaram ainda mais conhecidos, agora com mais propriedade, com as visitas que William Seabrook fez ao Caribe e conheceu mais sobre o vodu e as suas conexões com os zumbis. Suas histórias estão registradas no livro “A Ilha Mágica”, de 1929. Os zumbis seriam corpos que, durante cerimônias religiosas, seriam controlados por deuses, mas desde que a alma estivesse fora desses corpos. Após enterrado, o corpo estaria apto a voltar. Hoje, sabemos que a pessoa, tendo consumido psicotrópicos poderosos, entra em estado de transe, quando acredita que ficam mais próximos da verdade do mundo.
Os zumbis no cinema
Mas se existe um lugar em que os zumbis imperam, esse lugar é o audiovisual. O sucesso da série “The Last of Us”, da HBO e inspirada em game homônimo, e o terceiro filme da franquia “Extermínio”, cujo trailer foi o mais assistido na história dentro do gênero terror, mostram muito bem isso. Contudo, os zumbis estão no cinema faz um tempão.
Especula-se que os zumbis tenham aparecido pela primeira vez nos cinemas em “White Zombie” (“Zumbi Branco”), lançado em 1932. Dirigido por Victor Halperin, o filme é estrelado por Bela Lugosi no papel de Legendre, um feiticeiro haitiano que transforma pessoas em zumbis para servirem como trabalhadores escravos. A trama foi inspirada no livro de Seabrook e conta a história da transformação de uma jovem mulher em zumbi por um feiticeiro voodoo maligno.
O zumbi como efeito vodu apareceu em vários outros filmes, como Ouanga (1934), de George Terwilliger, mas ampliaram sua base. No filme britânico “O zumbi”, de Boris Karloff, o protagonista é um egiptólogo que descobre direitos funerais antigos que permitem a volta dos mortos. Mas o vodu permaneceu forte nessa mitologia até os anos 1950. Boa parte desses filmes era racista, enxergando as culturas caribenhas como exóticas, atrasadas, bárbaras e assustadoras. E para quem pesquisa cultura, perceber esse tipo de coisa nos filmes de zumbi é importante, pois nos ajuda a entender melhor imaginários e mentalidades das sociedades que produzem esses filmes.
George Romero
No final da década de 1960, “A Noite dos Mortos-Vivos” (“Night of the Living Dead”), de 1968, dirigido pelo cineasta americano George A. Romero (1940-2017), redefiniu o gênero e estabeleceu a imagem moderna dos zumbis como cadáveres reanimados que se alimentam de carne humana.
Night of the Living Dead (1968) revolucionou o gênero do terror porque jogava, mais uma vez, com a mentalidade da época, neste caso, os medos sociais da Guerra Fria e as armas de destruição em massa. Com um estilo cru e realista, Romero utilizou orçamentos modestos para criar uma atmosfera de desespero e isolamento, influenciando gerações de diretores e consolidando um novo arquétipo do monstro cinematográfico.
Ao longo de sua carreira, Romero expandiu seu universo de zumbis com filmes como Dawn of the Dead (1978) e Day of the Dead (1985), aprofundando suas críticas à sociedade de consumo, ao militarismo e à alienação. Apesar de ser mais lembrado por essa franquia, ele também dirigiu outros filmes de terror notáveis, como Martin (1976) e Creepshow (1982), demonstrando sua versatilidade no gênero. Seu impacto transcende o cinema, influenciando quadrinhos, videogames e séries de TV como The Walking Dead. Mesmo após sua morte, seu legado continua vivo, redefinindo constantemente a cultura dos filmes de horror. Vários cineastas reconhecem hoje que são tributários de Romero.
Século XXI
O século XXI trouxe uma nova onda de narrativas sobre zumbis no cinema e na televisão, ressignificando essas criaturas para refletir ansiedades contemporâneas. Filmes como Extermínio (2002), de Danny Boyle, renovaram o interesse pela figura do morto-vivo, apresentando infectados velozes e agressivos, um reflexo do medo crescente de epidemias e colapsos sociais. Invasão Zumbi (2016), do cinema sul-coreano, seguiu essa linha, usando a jornada frenética de seus personagens para discutir desigualdade social e desumanização em tempos de crise. Já Guerra Mundial Z (2013), com Brad Pitt, trouxe um espetáculo de ação global, onde zumbis em massa representavam o pânico diante de pandemias e a fragilidade dos governos em lidar com catástrofes.
Na televisão, The Walking Dead (2010–2022) consolidou a estética apocalíptica e aprofundou a ideia de que a maior ameaça, muitas vezes, não são os zumbis, mas os próprios sobreviventes. A série explorou temas como autoritarismo, moralidade em tempos de crise e o colapso das instituições sociais. Produções mais recentes, como The Last of Us (2023), adaptada do jogo homônimo, trouxeram uma abordagem mais intimista, enfatizando laços humanos em meio à destruição. O foco na relação entre Joel e Ellie reforça debates sobre sobrevivência, trauma e escolhas morais em cenários extremos.
Enquanto isso, Reality Z (2020), uma produção brasileira baseada na série britânica Dead Set, brincou com a cultura do entretenimento e a alienação do público ao transformar um reality show em cenário de um apocalipse zumbi. A crítica ao voyeurismo e à sociedade do espetáculo se mistura ao caos da narrativa, ressaltando a maneira como as mídias de massa moldam a percepção do mundo. Já Black Summer (2019), um spin-off de Z Nation, trouxe um realismo cru e frenético, destacando a desorientação e o medo puro dos primeiros dias de um surto zumbi, em um mundo onde a sobrevivência depende mais de instintos do que de planejamento.
Filmes como “REC” (2008), “O mal que nos habita” (2023) e “Orgulho, preconceito e zumbis” (2016) se aventuram em novas releituras do fenômeno, que vão desde o humor até a mistura com outros gêneros do terror, como demônios. Tem zumbis, hoje, para todos os gostos.
Essas produções do século XXI mostram que os zumbis continuam sendo um espelho dos medos contemporâneos. Epidemias, crise climática, polarização política e desconfiança nas instituições aparecem metaforicamente nesses universos devastados. Ao abordar a fragilidade da civilização e os dilemas morais da sobrevivência, esses filmes e séries seguem reinventando o gênero, mantendo os zumbis como símbolos poderosos das ansiedades da era moderna.
Livros recomendados
Se você gosta do tema, eu recomendo demais o livro “Zumbis: o livro dos mortos”, de Jamie Russel, que fala sobre a história dos zumbis focando no cinema. É talvez o melhor livro sobre o tema para quem gosta desse gênero cinematográfico. Mas se você quer algo mais no campo da não ficção, minha dica é o livro “Theories of International Politics and Zombies”, do pesquisador Daniel W. Drezner. Na obra, Drezner tenta responder uma pergunta: O que aconteceria com a política internacional se os mortos ressuscitassem e começassem a comer os vivos?
Abordando questões oportunas com mordida analítica, Drezner analisa como teorias bem conhecidas das relações internacionais podem ser aplicadas a uma guerra com zumbis. Explorando os enredos de filmes, músicas e livros populares sobre zumbis, “Theories of International Politics and Zombies” prevê cenários realistas para o cenário político diante de uma ameaça zumbi e considera quão válidos — ou quão podres — tais cenários podem ser. O autor examina as teorias de relações internacionais mais proeminentes — incluindo realismo, liberalismo, construtivismo, neoconservadorismo e política burocrática — e decompõe.