3 de abril de 2025
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“Paradise”: tudo é ótimo na série, exceto uma coisa

A primeira temporada de "Paradise" tem 8 episódios e está no Disney +. A série diverte, intriga e respeita a sua inteligência. Mas se você é uma pessoa que precisa de argumentos para ser convencida a assistir, eu vou te dar alguns.
22 de março de 2025
Cena de Paradise.
"Paradise" tem 8 episódios na temporada de estreia. Foto: divulgação.

“Paradise”, a nova série da Disney+, foi uma surpresa agradável neste início de ano. Os oito episódios dessa temporada de estreia já estão disponíveis na Disney. A série é ótima. Diverte, intriga e respeita a sua inteligência. Mas se você é uma pessoa que precisa de argumentos para ser convencida a assistir, eu vou te dar alguns.

“Paradise” é um suspense político criado por Dan Fogelman (da super bem sucedida “This Is Us”), lançada em 26 de janeiro de 2025 no Hulu nos Estados Unidos e disponível no Brasil pelo Disney+. Na série, acompanhamos um agente que investiga um assassinato que mexe com a rotina pacata e aparentemente perfeita de uma pequena cidade americana.

Quando eu li pela primeira vez essa sinopse, eu torci do nariz. Já vi dezenas de filmes com esse mote, e não é algo que me empolgue. Mas em “Paradise” essa sinopse é uma pegadinha. Ela faz parte do show que surpreende o espectador. Então, ter a agradável surpresa de que a série não é exatamente sobre um assassinato envolto em mistério foi algo muito positivo. A série realmente vai em outras direções, surpreendentes e empolgantes.

Mas “Paradise” não é ótima porque é surpreendente. O roteiro da série é muito bem escrito, com diálogos sóbrios e convincentes. Todos os oito episódios da primeira temporada são bem redondos. Nada está lá por vaidade – tudo existe para impulsionar a história. O elenco principal é excelente, com destaque para Sterling K. Brown, no papel do policial, James Maraden, no papel de um político, e Julianne Nicholson no papel da toda-poderosa da cidade e atormentada pelo passado traumático.

A série soube usar muito bem o recurso do plot twist (mais de uma vez), de flashbacks e trilha sonora. Muitos desses recursos bem usados devem-se às mãos de Fogelman, que fez o mesmo dar certo em “This Is Us”. Tudo isso faz com que a gente veja um episódio após o outro, sem parar. “Paradise” é totalmente maratonável, daquelas séries que cabem muito bem num final de semana chuvoso ou domingo de preguiça.

A partir de agora, spoilers.

“Paradise”: as revelações

A verdadeira sinopse de “Paradise” seria: nesta nova série, acompanhamos Xavier Collins (Sterling K. Brown), um agente do Serviço Secreto que investiga o assassinato do presidente dos Estados Unidos, Cal Bradford (James Marsden), em uma comunidade aparentemente pacífica montada em uma rocha no Colorado, após uma catástrofe provocar o fim do mundo.

À medida que Xavier se aprofunda na investigação, ele se depara com uma teia de conspirações e segredos que ameaçam a estabilidade política do que sobrou dos Estados Unidos. Ele não pode confiar em ninguém.

Esse argumento, que vai além do suspense policial, mesclando elementos de thriller, ficção científica e drama familiar, é o outro ponto forte de “Paradise”. O espectador quase cai da cadeira ao final do primeiro episódio, quando descobre que aquela cidadezinha, tipicamente americana, é um grande abrigo subterrâneo bancado por bilionários e políticos poderosos. E cai da cadeira no sétimo episódio, o mais incrível da série – o que mostra o dia em que o mundo acabou. Eu já vi muitos filmes pós-apocalípticos. Gosto do gênero. Mas, olha, esse sétimo episódio foi a melhor representação do fim do mundo que já vi.

O argumento do bunker seguro e longe do caos é ótimo para falar sobre desigualdade social, política e poder. É interessante descobrir, por exemplo, que o grande tsunami provocado pela erupção de um super vulcão no ártico causou também uma guerra nuclear entre as superpotências, que resolveram atacar umas às outras antevendo a luta por recursos no mundo pós-tsunami. Essa sacada foi tão boa, que eu até perdoo a caracterização heroica do presidente americano. Boa também foi a cena em que os agentes promovem um golpe de estado em Paradise (nome dessa cidade cenográfica). A série, por sinal, nos faz lembrar demais de “O Show de Truman”, de 1998, com Jim Carrey.

Mas qual a única coisa que não é boa?

A série é ótima até o final do oitavo e último episódio. É quando “Paradise” escorrega feio, e tão feio que nós temos motivos para temer uma segunda temporada. No season finale, Xavier descobre que sua esposa está viva. Em algum lugar. E o que ele faz? Ele simplesmente deixa os seus dois filhos menores de idade em Paradise (altamente instável depois de tudo o que rolou), se mete em um avião (sim, ele é piloto também) e vai em busca de sua amada, sem saber onde ela está ou como está. E aqui cabe dizer: ele também descobriu que as condições metereológicas lá fora são melhores do que ele e os outros habitantes de Paradise sabiam, pois foram enganados.

Tem muita coisa errada nesse final. Ele é clichê demais. A morte da esposa era o motivo da dureza do personagem e de seu dilema. Tornar a esposa sobrevivente muda tudo. Xavier simplesmente assume um papel batido de herói. E o que dizer dele deixar seus filhos para trás? Se eu deixasse meus filhos no meio do fim do mundo com desconhecidos para buscar minha esposa desaparecida, ela simplesmente me mataria quando eu a localizasse! A série não precisava desse final. Absolutamente desnecessário. Quem assistiu à série desde o início e gostou dela, gostou devido à ficção científica.

Esse final compromete a série? A primeira temporada certamente não. Vale a pena assistir. Quanto à segunda, eu não coloco a mão no fogo.

Considere ler também nossa matéria sobre a série Arquivo-X.

Bruno Leal

Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor do Departamento de História da Universidade de Brasília. É editor do portal Café História e colabora esporadicamente para o Bonecas Russas.

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